28 de fevereiro de 2011

Arraial d'Ajuda, Bahia: Sol, côco gelado, axé e...tango?


Sim, meus caros. O sul da Bahia agora pertence aos nossos hermanos. Tudo bem, tudo bem. Estamos fora de temporada (muito embora o carnaval já esteja batendo as portas.) Mas é incrível como topamos mais com argentinos (um ou outro uruguayo perdido por aí) do que brasileiros por essas bandas. Um reflexo disso são os restaurantes que oferecem picanha e file mignon na vila (um deles com o simpático nome de Boi nos Aires), e garçons que falam melhor a língua de Carlos Gardel do que a de Gilberto Gil.

Há vôos diretos e diários de Buenos Aires para Arraial (grande parte fretados). Recuperados de uma crise econômica, e ainda que seus Pesos continuem desvalorizados quando comparados ao nosso forte Real, o fato é que chegam em bandos para curtir o tempero da baiana, o calor dos trópicos e a água de côco. Água de côco... descobri que ela é um artigo de luxo. Alguns (novos) amigos argentinos nunca tinham bebido dessa iguaria natural e voltam agora batizados com esse revigorante isotônico.Também uma oportunidade de estreitarmos os laços com as vizinhas do sul, de preferência em uma das festas que agitam Arraial e Porto Seguro.

Enfim, caso estejam precisando aprender ou afiar seu castellano...venham para Arraial d’Ajuda!

22 de fevereiro de 2011

E por falar em montanhas...

OK, na verdade não é bem uma montanha. Talvez seja um canyon. Um boulder. Ou uma simples fissura na rocha.

O fato é que a história se trata de um escalador. Na verdade, os protagonistas são o escalador e uma pedra. Mas não qualquer pedra, e sim uma pedra grande, pesada, irritantemente inerte, que cai e esmaga a mão do escalador.

O enredo soa até desinteressante: preso por uma pedra ao cair em uma fissura no meio do nada, um escalador passa cinco dias tentando se livrar desse aprisionamento natural, chegando aos extremos da sobrevivência, até adotar uma medida drástica para se soltar.

Mas a forma como foi produzido o filme é interessante, e embora seja praticamente um monólogo, o ator, James Franco, manda muito bem ("Oscar nominated"), e a trilha sonora é vibrante. As cenas são espetaculares. Não fosse somente isso, os dramas psicológicos pelos quais ele passa nesse curto período de 5 dias - para nós, curto, mas para o personagem da vida real, deve ter parecido uma eternidade - são abordados sob uma perspectiva pirotécnica, transformando um enredo aparentemente simples em uma hora e meia de tensão.

O filme se chama "127 horas" e vale a pena conferir. Trailer segue abaixo.


21 de fevereiro de 2011

Subir uma montanha por ano


Conversa de sala de embarque de aeroporto em um final de dia de ressaca. A Luna apresentou uma interessante teoria sobre montanhas: é necessário subir pelo menos uma montanha por ano. Não precisa escalar, basta subir com os próprios pés.

Essa frase assemelha-se com outra um pouco mais conhecida: "matar um leão por dia".

Mas subir uma montanha por ano significa muito mais. Significa alcançar o topo de um obstáculo até então intransponível. Significa se direcionar para uma meta aparentemente irrealizável, talvez inalcançável.

Assim, subir uma montanha por ano pode ser traduzido em escolher um objetivo difícil e caminhar para a sua realização. Não precisamos subir mais do que uma montanha por ano. Uma montanha só é suficiente. Concentre-se nessa montanha.

Estamos ainda no começo de 2011. Ainda dá tempo para escolher qual montanha subir. Você já decidiu qual será a sua?

16 de fevereiro de 2011

Duas palavras


Havia um certo Mosteiro Zen que era muito rígido. Seguindo um estrito voto de silêncio, a ninguém era permitido falar. Mas havia uma pequena exceção a esta regra: a cada 10 anos, os monges tinham permissão de falar apenas duas palavras. Após passar seus primeiros dez anos no mosteiro, a um jovem monge foi permitido ir ao monge Superior.

"Passaram-se dez anos," disse o monge Superior. "Quais são as duas palavras que você gostaria de dizer?"

"Cama dura..." disse o jovem.

"Entendo..." replicou o monge Superior.

Dez anos depois, o monge retornou à sala do monge Superior.

"Passaram-se mais dez anos," disse o Superior. "Quais são as duas palavras que você gostaria de compartilhar?"

"Comida ruim..." disse o monge.

"Entendo..." replicou o Superior.

Mais dez anos se foram e o monge uma vez mais encontrou-se com o seu Superior, que perguntou:

"Quais são as duas palavras que você gostaria de dizer, após mais estes dez anos?"

"Eu desisto!" disse o monge.

"Bem, eu entendo o porquê," replicou, cáustico, o monge Superior. "Tudo o que você sempre fez foi reclamar!"

(Este é um conto comum em alguns locais Soto ocidentais. Não existe certeza se é um conto Zen original.)


15 de fevereiro de 2011

O BRASIL NA VISÃO DOS AMERICANOS ( REPORTAGEM DA TV AMERICANA)

Interessante reportagem sobre o Brasil no famoso programa jornalístico americano "60 minutes".

Quem deu a notícia do vídeo foi o Erico Batché.

Le multiculturalisme est mort?


As recentes manifestações da chanceler-bunker alemã Angela Merkel e do primeiro-ministro inglês David Cameron de que o "multiculturalismo não deu certo", de que passa a ser necessário agora incorporar os estrangeiros, os imigrantes, os clandestinos, à moda européia, contraria em muito os supostos ideais liberais (ou libertários?) professados por senhores e senhoras europeus mundo afora.

Diz a senhora alemã: “E é claro que a maneira que estamos tentando construir uma sociedade multicultural e viver lado a lado uns dos outros... Essa estratégia fracassou, fracassou completamente" e “O multiculturalismo está morto”.

Diz o primeiro-ministro britânico: “Francamente, nós precisamos de muito menos tolerância passiva dos últimos anos e muito mais liberalismo ativo, muscular”.

Acostumada a deitar e rolar nos países que dominaram, seja na base do canhão, seja na base do querequéqué, agora, após décadas de imigração intensa periferia-centro (e o que mais a assusta, dos países de tradição islâmica), a Europa se vê acossada internamente e, por não saber lidar com o discurso da tolerância na sala de estar de sua própria casa (aprendeu muito a fazer graça com o chapéu dos outros...), parte agora para o contraataque, tendo que defrontar suas próprias inconsistências ideológicas e, por que não, seus próprios fantasmas.

Retorno ao Estado-nação forte do século XIX? Dificilmente. Os países europeus hoje se deparam com regionalismos e cismas dentro de seus próprios Estados e qualquer discurso totalizante certamente não será bem-sucedido.

O que se vê é uma Europa que não sabe lidar com valores estrangeiros que vão contra os princípios liberais tão profundamente professados. E o mais interessante: entre esses princípios, a idéia de tolerância é rainha. Mas como agir com tolerância contra intolerantes ou aqueles que representam idéias contrárias aos mais comezinhos princípios ocidentais? É possível uma acomodação, uma síntese desses valores? Ou a intolerância européia ganhará força, com a ampliação da vitalidade de partidos de (ultra?) direita?

O multiculturalismo significa a coexistência pacífica de povos que, embora possuam diferentes valores, compartilham o mesmo espaço e se toleram por meio de regras de convivência mutuamente acordadas.

O mundo perde com uma Europa intolerante, pois sempre foi vanguardista na defesa das liberdades e dos direitos humanos.

Devemos acompanhar de perto o desenrolar dos próximos capítulos, pois há uma nova configuração internacional surgindo, que não fica apenas na redistribuição de poder para os países emergentes, pois alcança também a reconfiguração de valores no campo simbólico das relações entre os povos. A ver...

8 de fevereiro de 2011

Talvez...


Há um conto oriental sobre um velho fazendeiro que trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.
"Que má sorte!" eles disseram solidariamente.
"Talvez," o fazendeiro calmamente replicou.
Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens.
"Que maravilhoso!" os vizinhos exclamaram.
"Talvez," replicou o velho homem.
No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna.
"Que pena," disseram.
"Talvez," respondeu o fazendeiro.
No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor.
O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente:
"Talvez."

7 de fevereiro de 2011

Carta do Chefe Seattle + Yeha Noha

Segue aqui um vídeo do You Tube, com trechos da famosa Carta que o índio Chefe Seattle mandou ao Presidente norte-americano no século XIX.

A carta possui grande força argumentativa, e em tempos apocalípticos como o presente, faz-nos refletir sobre a insustentabilidade de nossos valores.

A trilha sonora que segue é de um projeto musical chamado Sacred Spirit que, segundo o Wikipedia, envolve música eletrônica, new age, ambiente, house, jazz e blues. Uff! Faltou mais algum tipo de música? Ah sim, isso é porque os compositores não conhecem axé, pagode e sertanejo universitário...

Vale a pena conferir.


5 de fevereiro de 2011

Chuteira véia é que faz corrida boa


Assim como Dona Maria e Seu Zé das Côve, a gaia ciência gosta muito de mudar de opinião. Para aqueles que acreditam na "infevável e absoluta verdade científica", deve vir sempre como um soco na cara as revisitas que os cientistas fazem sobre verdades até então tidas como incontestáveis.

Durante décadas, os tênis bons e saudáveis para corrida eram aqueles que possuiam um adequado sistema de amortecimento, capaz de reduzir o impacto da pisada e de possibilitar a distribuição do choque nas articulações das pernas.

Não mais. Agora insistem que o legal é usar um tênis com a sola mais fina possível. Se puder correr sem tênis até, ótimo. Era assim que nossos ancestrais da Era do Gelo corriam. Não tinham essa frescura de tênis ultra-mega-power. Correr no natural tornou-se saudável.

Com isso - e agora essa é a conclusão de um amigo corredor, Moisés (o crédito a quem é de direito) e eu assino embaixo - cai também aquela ânsia capitalista de que o tênis se torna imprestável após rodar algumas centenas de kilômetros. O tênis passa a servir até mesmo quando tiver com a sola desgastada, um buraco acusando a experiência de ter cruzado asfalto, praças, pistas, estradas de terra.

Percebi que o meu tênis fica cada vez melhor a cada dia que passa. Panela velha é que faz comida boa?


3 de fevereiro de 2011

Sidharta e a busca do caminho espiritual


Seguindo o conselho de meu amigo Cotó, resolvi ler o livro Siddharta, de Herman Hesse. O livro é relativamente curto, e pode ser lido em poucas horas. Em síntese, o livro trata da jornada espiritual de Sidarta (não confundir com o Sidarta Gautama, o Buda), que inicia a vida como uma brahmin. Insatisfeito com rituais vazios, renuncia à sua vida privilegiada e se torna um samana, um asceta indiano que abdica dos mais singelos prazeres materiais. Ainda não realizado, após um encontro não muito amistoso com Gotama (esse sim, o Buda, que faz essa ponta no romance), ele se entrega ao sexo e à vida mundana, adotando como mestra uma cortesã, Kamala (Lótus, em sânscrito). A partir daí, sua jornada pela espiritualidade e a iluminação segue altos e baixos.

Para aqueles que estão à procura do caminho, Herman Hesse deixa algumas lições bem claras:

Lição número 1 - De nada adianta seguir uma religião ou qualquer doutrina espiritual. A busca espiritual possui um caráter individual. De nada adianta seguir os passos de um professor ou um guia espiritual. Qualquer tentativa nesse sentido é inútil. Essa lição está no ditado espanhol: Caminhante, faz-se o caminho ao andar!

Lição número 2 - A Iluminação não é um evento único, um ponto culminante na busca espiritual. Ela acontece, recebemos o insight, depois retrocedemos. Depois iluminamos novamente. Depois de volta à amargura. Depois mais um satori. Infindável como é, ela segue nossa existência e não se resume a um momento exclusivo de revelação. Iluminamos e apagamos para iluminarmos novamente.

Lição número 3 - ... - Leia o livro. Ela está lá, bem nas entrelinhas.

A arte de rapelar (cascading)


Imagine ficar pendurado a 100 metros de altura, com a vida por um fio (uma corda e uma cadeira de escalada, na verdade), ao lado de uma queda de cachoeira com a força de 100 toneladas. Agora, imagine-se, assim pendurado, aos poucos, realizar pequenos saltos (às vezes passos) em meio a rochas, árvores horizontais, lama, mato, terra... A verticalidade se torna a vida. A vida se torna vertical. Enquanto desce - uma descida que não acaba - o vapor da cachoeira limpa o suor e a adrenalina escorre. Adrenalina e cachoeira se misturam. Depois, a adrenalina vira cachoeira.

Empolgação de marinheiro de primeira viagem? Não há dúvidas. Mas é uma sensação fantástica, em que a beleza da natureza verbalizada numa queda d'água se mistura com um ritmo cardíaco ultra-acelerado. Nessa mistura, sobra só o tempo presente, consumindo 100% da atenção.

Ao invés de horizontal, acho que o mundo deveria ser vertical.