22 de julho de 2011
9 de maio de 2011
A amante

De mulher primeira, torna-se relegada a um papel de amante de caminhoneiro. Como poderia tê-la traído por aquela outra tão promíscua, antro da perdição? E depois por aquela outra, reluzente, que oferecia carne seca e baião de dois? E agora por essa, mais fria, mais européia, mas ao mesmo tempo também cordial e amena?
É difícil aceitar que o mundo continua girando, e o passado já se foi. E ela, persistente, parece comprovar Nelson Rodrigues, para quem "amar é ser fiel a quem nos trai."
Sempre com um sorriso largo nos lábios, ela busca seduzir e reconquistar. Mas, no final, sabe que foi em vão, que continuará simplesmente como uma amante. Mas sabe também que o andarilho sempre retornará para desfrutar de seu leito embriagante.
Mensagem de Portugal
5 de maio de 2011
Sete bilhões de macacos arrogantes fora de controle em uma bola de lama acelerada

O Capitão Paul Watson é o importante fundador da ONG ambientalista Sea Shepherd, internacionalmente famosa por obstruir as atividades dos navios baleeiros japoneses, mas cujo foco é a proteção da vida marinha sob todas as suas formas.
O artigo é polêmico, reconheço - principalmente a forma ácida como trata de Deus e das religiões - mas dá no que pensar e, diante do meu vácuo mental dessa semana, ofereço a vocês esse textículo desse grande ambientalista. Reproduzo, na íntegra, tal como se encontra no site da Sea Shepherd Brasil (inclusive a fotografia foi tirada de lá).
Boa diversão...
COMENTÁRIO DO CAPITÃO PAUL WATSON
Eu estou aqui sentado, no fundo de um dos braços espirais remotos da Via Láctea, nesta pequena bola azul e branca girando, feita de lama, orbitando em volta de uma estrela amarela, e compartilhando essa experiência com uma diversidade de maravilhosos companheiros terráqueos, e outros sete bilhões de macaquinhos bobos como eu.
As últimas estimativas da multidão de cientistas observadores de estrelas é que poderia haver cerca de sessenta bilhões de planetas inabitados, possivelmente, só na nossa galáxia. E, claro, há uma infinidade de possibilidades de vida em evolução em outros lugares. Tantos seres desconhecidos, completamente alheios a nós, espalhados na vastidão do universo. E, claro, somos alheios não só à vida extraterrestre, mas estamos muito mais alheios à vida da maioria dos seres não-humanos em nosso planetóide viajando através do cosmos.
Nos últimos milhares de anos, nós, macacos humanóides, temos feito parte um inferno em detrimento de praticamente todas as outras espécies do planeta. Nós não tratamos muitos deles com respeito e o mínimo de consideração, mesmo os que parecem com a gente, como por exemplo, os chimpanzés e os macacos. Na verdade, nós damos à maioria das outras espécies muito pouca atenção, mesmo quando estamos os comendo ou os usando para trabalhar para nós. Tendemos a dar mais atenção quando estamos matando por prazer ou simplesmente porque não gostamos deles.
Para a maior parte de nós, macacos sem pêlos, ou relativamente calvos de qualquer forma, damos pouca atenção para onde viemos, quem somos, ou para onde estamos indo. Estamos satisfeitos enquanto houver algo para comer e beber, alguma coisa para comprar, outro macaco para copular ou jogar, ou enquanto temos o suficiente de uma variedade de estimulantes e dispositivos de entretenimento e oportunidades de atirar bolas ao redor juntos.
Nós, macacos na bola de lama, a propósito, absolutamente amamos tudo que tenha a ver com uma bola. Nós gostamos de jogar bola, pegar bola, chutar bola, bater bola, ou, melhor ainda, gostamos de assistir a outros macacos atirarem bolas, pegarem bolas, chutarem bolas e baterem bolas. Nada deixa uma espécie de macaco como nós mais animados do que uma bola passando entre dois postes, sendo jogada em algum aro ou atirada com um pau em algum buraco distante no solo. E bater em uma bolinha através da boca aberta de um palhaço em movimento, e passando os moinhos de vento.
Passamos a vida acreditando que nós, macacos, somos o ápice da criação. Na verdade, alguns de nós pensa que existe um grande macaco nervoso e poderoso no céu, que nos criou à sua imagem. Outros acreditam que viemos aqui em um navio no espaço intergaláctico e fomos jogados fora como uma espécie de projeto de realocação extraterrestre. Um grande número de nós, macacos, ainda acreditamos que quando morremos, passamos para algum paraíso exótico criado a partir da imaginação de alguns poetas, onde seremos felizes para sempre, a não ser, claro, que formos macacos maus, a julgar pelos mais poderosos macacos que se consideram mais superiores, o que então dizer que nós vamos passar a eternidade sendo torturados e abusados por macacos míticos feios, por não obedecermos ao macaco gigante Deus no céu.
É tudo um grande mistério, com muitas perguntas e absolutamente nenhuma resposta definitiva. A realidade é que nenhum de nós tem a menor idéia de qual é a realidade disso tudo. Mas poucos de nós querem ouvir que a resposta pode ser que não existe uma resposta, e assim nós fiamos e tecemos fantasias para vender para os fracos e os crédulos, porque sempre foi o melhor mercado.
Macacos, no entanto sempre tiveram talento para se divertir, e sete bilhões de macacos fazendo macaquices sobre esta bola de lama fornecem um fluxo interminável de tragédias divertidas, que muitas vezes me pergunto se existe uma maneira de colocar um fim neste espetáculo de comédia global.
Atualmente, dois macacos considerados melhores que a maioria dos outros macacos, esta semana se uniram em casamento, em um grande evento, onde milhões de outros macacos de todo o mundo comentaram sobre suas roupas, cabelos, relações e comportamentos.
Enquanto isso, em outros lugares, outros macacos estão batendo uns nos outros, e matando uns aos outros, através de uma interminável discussão sobre quem tem o melhor e mais poderoso macaco deus.
É tudo diversão e jogo de macaco, até a cortina descer sobre este show em breve.
Isso vai acontecer quando nós formos forçados a sobreviver sem a grande coletividade de macacos em nossas costas, em outras palavras, sem aquela droga fedorenta e preta chamada petróleo.
Um mundo sem petróleo! Isso vai ser um filme totalmente novo, e ninguém será capaz de sustentar o mesmo elenco de bilhões de personagens e espectadores.
Mas tem sido divertido ver os macacos evoluírem de savanas e florestas, aprenderem a plantar as sementes, fermentar os grãos, matar animais, matar uns aos outros e entrar em violentas lutas filosóficas sobre cujos macacos Deus têm o maior “pau”.
A história dos macacos sobre esta bola de lama girando é divertida, principalmente porque todos os macacos são tão sérios sobre a sua auto-importância.
Tudo o que fizemos, fazemos e continuamos a fazer é praticar o pequeno negócio de macaco, e que inclui a caça e a coleta de grande quantidade de coisas materiais para que possamos andar mais rápido, comer mais rápido, e divertir-nos melhor, encontrando formas mais eficientes para matar uns aos outros e destruir o planeta mais rápido.
A velha expressão “macaco vê, macaco faz” certamente se aplica a todos nós. Dê-nos uma espada e vamos apunhalar alguém, nos dê uma arma e vamos atirar em algo, nos dê uma plataforma com rodas e nós vamos dirigi-la. Dê-nos um rádio e nós vamos ouvir alguma porcaria que é tocada no ar. Nos dê algum dinheiro e vamos comprar alguma coisa. Dê-nos uma televisão e vamos olhar infinitamente para dentro do tubo, em um esforço para preencher as nossas necessidades de aventura, amor, felicidade e diversão.
É realmente muito engraçado quando você pensa sobre isso. A partir do nada, nos tornamos algo. Quando dois macacos trocam fluidos corporais dão à luz a cada um de nós, que continuamos a passar a vida fazendo o que outros macacos nos dizem que precisamos fazer, quando fazer, como fazer e onde fazer. Infelizmente, eles sempre têm um pouco de falta de informação sobre a razão de por quê fazê-lo, e o motivo fica complicado com um fluxo interminável de opiniões de macacos.
Nossa vida consiste principalmente em encontrar algo interessante para comer, beber, fazer e jogar. Ah, e também à procura de outro macaco ou mais, para trocar fluídos corporais.
E então, algum dia – isso varia, naturalmente, de macaco para macaco – de repente deixamos de existir, o que sempre me leva a pensar cada vez que alguém que eu conheço morre é: sobre o que diabos é tudo isso?
Claro que eu sei que é tudo parte de uma continuidade, mas se todo mundo que já viveu bem antes, cerca de cem anos atrás, está morto e enterrado, parece um pouco sem sentido – como qual é o ponto?
Foi tudo para ter um bom momento, jogar uma bola e trocar fluidos corporais?
Quero dizer, se assim for eu posso entender a necessidade de criar algumas fantasias para lidar com esta existência de morte.
A menos que você possa colocar o dedo sobre a “verdade” de tudo isso.
Uma árvore faz o que uma árvore faz. Um peixe faz o que um peixe que faz, humanos, fazemos o que fazemos, cuja maior parte consiste em nos divertir às custas de outras espécies.
Pessoalmente, penso que fomos uma das poucas experiências irracionais da natureza. Algo como vamos ver o que acontece quando damos a esses adoráveis macaquinhos sentados nos galhos das árvores um cérebro grande o suficiente para colocar todos nós em apuros, mas pequeno demais para compreendermos verdadeiramente o que é tudo isso.
E então começamos a dançar como criaturas tolas em torno dessa grande pedra preta, arremessando ossos e vendo onde isso nos trouxe – dançando como criaturas bobas no palco e lançando idéias engraçadas de como realmente somos seres superiores, ao invés de pretensiosos macacos pelados, e lendas divinas que em nossa mente sempre fomos.
E assim, girando, a bola de lama faz o seu caminho em torno de uma galáxia maciça misteriosa, completamente alheia e feliz, que antes de a bola de lama completar uma fração de uma volta completa nós já não existiremos coletivamente.
A bola de lama pode estar aqui e a estrela que orbita ao redor certamente estará lá, e espero que, apenas espero que, alguns dos ancestrais das espécies extremamente diversas que compõem a biosfera desta fascinante vivência coletiva nesta bola de lama ainda estejam aqui e, provavelmente, não faremos falta.
Traduzido por Raquel Soldera, voluntária do ISSB.
29 de abril de 2011
Momento de sabedoria zen

- Lin-chi, mestre zen chinês
"No cenário da primavera, não há nada melhor nem pior,
Os ramos das flores crescerão naturalmente, alguns longos, outros curtos."
- Provérbio zen chinês
28 de abril de 2011
E o projeto continua...
27 de abril de 2011
Rumo ao tri!
24 de abril de 2011
Junk food mental
Numa época em que a obesidade anda a passos largos para se tornar uma pandemia e, paradoxalmente, a cultura prevalecente nos ordena a mexer e malhar, parecemos esquecer do velho adágio romano: “mens sana in corpora sano”. Uma mente sã num corpo são. Quase tão antigo quanto a invenção da roda, parece ser o momento certo para dar novo significado a esse ensinamento ancião. De acordo com o Wikipedia, com essa frase, o poeta romano Juvenal criticava as orações erradas de seus contemporâneos, que pediam coisas descabidas aos deuses, quando bastava pedir saúde física e espiritual.
Com o tempo, a frase mudou de sentido e passou a comportar a idéia de ser necessário um equilíbrio saudável no estilo de vida. Pode ser compreendido que somente alcançamos bem-estar quando a mente e corpo estão sãos.
Se hoje a atenção volta-se para a qualidade (e quantidade) do que comemos, visando disciplinar nossa voracidade para evitar açúcar, gordura ruim e carboidratos, esquecemos que nossa mente também é voraz, insaciável, e merece também passar por uma “dieta”.
De acordo com o yôgin Vishnudevanana, a mente é como um macaco bêbado picado por um escorpião. O pensamento oriental utiliza bastante o termo “mente-macaco” para se referir a esse comportamento de nossa mente que divaga e, facilmente entediável, corre para outra ocupação. Cansando rapidamente, pula de um lazer para outro, ou para outro pensamento. Daí a analogia com o macaco, que pula sempre de galho em galho. Normalmente, enfatiza-se uma disciplina mental para tranquilizar o macaco, e fazer com que mude de árvores com, pelo menos, um pouco mais de atenção.
Todavia, nossa época proporciona infinitas possibilidades de experiências visuais, auditivas, táteis, olfativas e gustativas, através de nossas “cinco portas” (nossos sentidos) para o mundo, produzindo sensações. Desde a possibilidade do cinema 3D até fragrâncias das mais exóticas, desde as mais variadas posibilidades musicais até todo o tipo de cozinha internacional inimaginável e acessível, estamos suscetíveis a uma pletora de possibilidades de sensações, sejam agradáveis ou desagradáveis.
Ou seja, essa floresta está com muito galho para o macaco pular. E a cachaça está rolando solta para o macaco pular ainda mais ensandecido.
Isso não é um problema, até certo ponto. Quando passamos a perder o critério e o senso de quais sensações absorver, sem conseguir discriminar o necessário e saudável do desnecessário e tóxico, isso pode se tornar um problema para a mente, assim como junk food faz mal para o corpo.
E isso nem é novidade. Afinal de contas, os termos "poluição sonora" e "poluição visual" já estão circulando por aí há algum tempo. Talvez o que falte agora é assumirmos a responsabilidade individual para resistir ao despejo incontrolável das sensações do mundo contemporâneo.
Penso que permitir absoluta liberdade às sensações e se submeter à experiências tóxicas (na minha opinião, nada mais tóxico do que reality shows, revista fúteis e televisão domingo à tarde) se convertem num tipo de junk food mental, a que nos viciamos sem perceber. Isso pode trazer prejuízos não só para nosso conforto mental - como foco e discernimento - mas pode resultar em uma sociedade que perde absolutamente seus referenciais e não consegue mais perceber o que presta do que não presta.
Curiosamente, ao digitar junk food mental na pesquisa do Google, apareceu um site Mental Junk Food, que, como não poderia deixar de ser, trata de “celebrity gossip and news! Be the first to know about what is going on in the crazy world of entertainment.”
Serve apenas para provar o ponto em questão.
Depois de preocuparmos com o que comemos, será que não é hora de perguntar o que nossa mente anda consumindo?
22 de abril de 2011
Ted - Ideas worth spreading
Vale a pena conferir.
Abaixo, um sobre a diferença de cultura entre o Ocidente e a Índia:
6 de abril de 2011
5 filmes
1 - Na Natureza Selvagem
2- Dança com Lobos
3 - Beleza Americana
4 - Tempo de despertar
5 - A Família Addams (1 e 2)
4 de abril de 2011
Nosso curto dicionário emocional

Isso para um objeto concreto da realidade. Agora, imagine-se a dificuldade de se expressar um sentimento, uma emoção ou um estado de espírito. Se digo que "estou com raiva", espero que você compreenda o estado (momentâneo) de indignação e revolta com uma situação ou pessoa. Mas isso pressupõe que você já tenha passado por esse sentimento e entenda o efeito dessa emoção sobre o estado psíquico. A dificuldade aumenta: será que o que entendo por raiva, ou amor, ou ódio, ou alegria, ou orgulho, ou desprezo, é a mesmo coisa que você entende? Como saber?
Isso reflete no vocabulário dos povos. Em alguns idiomas, algumas emoções simplesmente não possuem uma palavra que as identifique. É conhecida a informação de que a palavra "saudade" existe apenas no português.
No livro "Consciência emocional" - que é um interessante diálogo entre o norte-americano Paul Ekman, renomado psicólogo comportamental, e o Dalai Lama, autoridade do budismo tibetano - os autores discutem o que chamam de "a pobreza da linguagem emocional".
Paul Ekman dá o exemplo da palavra "orgulho", que pode ser compreendida como autoconfiança. É o prazer que se tem nas realizações pessoais. E logo fala: "Para mim, isso é diferente do prazer que se tem nas realizações dos filhos, sejam filhos biológicos ou de criação. Quando eles conseguem se beneficiar das suas realizações, quando eles conseguem realizar as coisas, a sensação é boa. A única língua que conheço que tem uma palara específica para isso é o iídiche. Em iídiche, isso é chamado de naches, que significa o prazer singular que se sente, não quando você realizou algo, mas quando o filho ou aluno realizou algo." (Mas o Dalai-lama logo coloca uma observação auspiciosa: "ainda há uma auto-referência: É o meu aluno.")
O Dalai fala da compreensão do orgulho em sua língua, o tibetano: o estado emocional que se aproxima do orgulho, correspondente à forma como nos sentimos quando estamos diante de um grande desafio que nos leva até nosso limite, fazendo o melhor possível, sem ostentação - um tipo de "bom" orgulho, leva o nome em tibetano de popa. Já o orgulho negativo, o da ostentação, é ngagyal, que significa literalmente autovitória.
Em português, assim como no inglês, usamos apenas o termo"orgulho" para expressar ambos os estados emocionais. Da mesma forma, usamos "ambição" para expressar sentimentos que podem ser vistos como positivo (o "querer" que nos move a uma realização) como negativo (um querer desmesurado e potencialmente inescrupuloso).
Daí sempre haver controvérsias sobre o julgamento de emoções e pensamentos.
Paul Ekman dá ainda o exemplo da palavra "amor", usada tanto para expressar a emoção de afeto entre um homem e uma mulher, como aquela dos pais pelos seus filhos. Conclui que, quanto ao amor parental, não se trata de uma emoção, e sim de um compromisso de uma vida inteira.
Interessante a conclusão de Ekman, válida também para nossa língua lusa:
"Não conheço outras línguas o suficiente para dizer, mas o inglês me parece relativamente pobre na classificação das diferentes emoções. Se não temos palavras para descrever diferentes estados, como essas duas palavras tibetanas, não temos como pensar a respeito deles e nos anteciparmos a eles. Não podemos nos disciplinar tanto porque não temos as palavras para nos referir a essas emoções. Sem palavras, não podemos refletir sobre o que ocorreu ou poderia ocorrer.
Somos, em certo sentido, animais que não têm, pelo menos em inglês, palavras suficientes para descrever a variedade de nossas experiências emocionais, particularmente quando elas são destrutivas ou construtivas. Sem rótulos diferentes para cada estado mental é difícil refletir sobre sua natureza e considerar como queremos demonstrá-los em episódios emocionais futuros."
Hora de ampliar o Aurélio?
2 de abril de 2011
Limites da auto-superação em um teste ergométrico

Nas palavras de Georg Feurstein,
"Na Índia, o termo mais antigo (que designava as práticas semelhantes às do Yoga) era tapas. Essa antiga palavra sânscrita significa literalmente 'calor'. É derivada da raiz verbal tap, que significa 'abrasar' ou 'brilhar'. O termo é usado muitas vezes no Rig-Veda para descrever a qualidade intrínseca e a obra do disco solar (ou do deus correspondente, Sûrya) e do fogo sacrificial (ou do deus correspondente, Agni). Esses textos deixam implícito que o calor do sol e do fogo é doloroso e opressor em sua intensidade abrasadora. Vemos aí a raiz do uso metafórico que depois de seu à palavra tapas, que passou a significar o calor da alma sob a forma da raiva e da agressividade mas também do fervor, do zelo e da dedicação ardorosa.
Assim, a palavra tapas passou a designar o esforço religioso ou espiritual, a disciplina que o homem impõe a si mesmo sob a forma de práticas ascéticas. Por isso, tapas é frequentemente traduzido por 'ascese' ou 'ascetismo'." (Georg Feurstein, A tradição do Yoga, Editora Pensamento, p. 106-107)
DeRose, em uma releitura do tapas, apresenta o seguinte conteúdo desse princípio:
"O yôgin deve observar constante esforço sobre si mesmo em todos os momentos. Esse esforço de auto-superação consiste numa atenção constante no sentido de fazer-se melhor a cada dia e aplica-se a todas as circunstâncias."
Pois bem. Se tapas se aplica a todas as circunstâncias e significa "auto-superação" por meio do "fervor, do zelo e da dedicação ardorosa", porque não aplicá-lo em um teste ergométrico?
Também para facilitar a definição do que vem a ser o teste ergométrico, chamo aqui meu amigo Wikipedia:
"Teste Ergométrico, Teste Cicloergométrico ou Teste sob estresse físico é um exame complementar de diagnóstico em Medicina, realizado por profissional médico cardiologista habilitado, que consiste em submeter o indivíduo a uma determinada modalidade de esforço físico graduado e monitorado com eletrocardiograma, objetivando aumentar sua demanda metabólica global e em especial a demanda metabólica do coração, podendo assim avaliar, entre outras variáveis, a aptidão cardio-respiratória global do indivíduo e a presença de isquemia no músculo cardíaco.(...) O esforço pode ser realizado geralmente através de esteira ou bicicleta."
No caso que agora comento, foi adotada a esteira. O teste começa com a esteira em plano, numa velocidade baixa, a ponto de se poder andar. Porém, não fica nessa moleza não. A esteira vai aumentando em inclinação e em velocidade. Enquanto vai aumentando, o médico monitora a pressão, e vai perguntando, "está tranquilo?".
É óbvio, vamos respondendo que sim. Está tranquilo? Sim. Aumenta a velocidade e a inclinação. Está tranquilo? Mel na chupeta. Aumenta a velocidade e inclinação. Mede pressão. Continua confortável? Para mim, está ótimo. Inclinação em trinta graus, o passo aperta. O médico: se quiser, pode começar a correr. Legal. Inclinação em quarenta graus, começo a correr. Mede pressão. O médico intervém de novo: Quando não se sentir mais confortável e achar que não dá mais pra ir, só falar que paramos.
Parar?? Jamais. Tapas. Auto-superação. Dedicação ardorosa. Só paro quando o exame concluir.
Inclinação acentuada mais ainda, começo a correr mais. Provavalmente uns 8 km/h. Mede pressão. 9km/h. A esteira já está quase vertical! 10 km/h. A respiração fica ofegante, boca aberta. Olhando o monitor, a frequência vai se elevando: 178, 184, 187, 189!
O médico continua medindo a pressão. Está tranquilo? Aham... As palavras param de sair. O pensamento: quando termina esse maldito exame? O pensamento verbaliza para o médico: Quanto tempo mais? O médico: Na hora que você quiser parar.
Na compreensão de alguém que começa a ser tomado pela fadiga e um início de desespero, entendi que o exame estava concluído, e não titubiei: para mim, está bom!
Ok, teste encerrado. Fiquei satisfeito por ter ficado ali, quase escalando a esteira em alta velocidade, coração a mil, e ser autorizado pelo médico a encerrar o exame. Porém, após a entrega do exame, leio, já em casa, uma das conclusões, para a minha consternação:
"Teste interrompido por exaustão física".
Teste interrompido??? Exaustão física??? Mas já estava terminado! Por isso, pedi arrego. E de qualquer forma, tinha ainda gás para mais um pouco! O tapas foi por água abaixo. A auto-superação ficou pra outro dia. Uma lição quanto à aplicação desse princípio em todas as circunstâncias...
Porém, um resultado positivo para o condicionamento físico. Na conclusão sobre a aptidão cardiorespiratória, constou "excelente". Certamente, desde que me entendo por gente, é a primeira vez de uma nota dez nesse quesito. Nem tudo são espinhos num teste ergométrico.
27 de março de 2011
Site "Trocando livros"

Fuçando e me cadastrando no site "Trocando livros", achei interessante divulgar. Funciona da seguinte maneira: após fazer o login, você cadastra todos aqueles livros que já leu - quer tenha gostado, quer não -, e que esteja disposto a passar para outra pessoa sedenta de leitura. Dito de outro modo, um livro que vai e não volta.
Se alguém se interessar por seu livro e o pedir, você envia por correio para a pessoa (o site é quem faz a intermediação). Após enviá-lo e cadastrar o número de registro do correio no site, você ganha um ponto.
Com esse ponto, você pode pedir um dos livros cadastrados no site, à sua livre escolha. E assim vai sucessivamente.
Me pareceu uma ótima idéia de economizar não só no bolso de um ávido leitor, como contribuir para o meio ambiente, fazendo que os livros se tornem bens reutilizáveis (à modo das bibliotecas pouco consultadas).
Mais uma das descobertas da internet.
Agora, confesso que ainda não recebi nenhum livro pelo sistema. Vou enviar o meu primeiro essa semana. Depois avalio a confiabilidade e qualidade do serviço.
18 de março de 2011
Uma visão do Caribe do século XVIII
"I have travelled everywhere in your sea of the Caribbean...from Haiti to Barbados, to Martinique and Guadeloupe, and I know what I am speaking about...
You are all together, in the same boat, sailing the same uncertain sea...citizenship and race unimportant, feeble little labels compared to the message that my spirit brings to me: that of the position and predicament which History has imposed upon you...
I saw it first with dance... the merengue in Haiti, the beguine in Martinique and today I hear, de mon oreille morte, the echo of calypsoes from Trinidad, Jamaica, St. Lucia, Dominica and the legendary Guiana...
It is no accident that the sea wich separates your lands makes no difference to the rhythm of your body."
17 de março de 2011
Uma avaliação da Revolução Cubana
Aproveitando a rflexão pós-viagem, segue uma citação extraída do livro “The Caribbean: the Genesis of a fragmented nationalism”, segunda edição, de Franklin W. Knight, que assim avalia a Revolução liderada por Fidel Castro:
“The achievements of the Cuban Revolution lie not merely in the prosaic compilation of comparative statistical information – houses, schools, and hospitals built; doctors, teachers, agronomists, and technicians trained; communications and utilities provided; roads, factories, and farms constructed; number of men in arms – or the discussion of human costs in death, exile, and alienation.
The achievements of the revolution transcend the mere introduction of a socialist society and a socialist economy. The success of the revolution also lies in the tremendous infusion it gave to Cuban and Caribbean nationalism. The Cubans demonstrated that race, color, class and limited natural resources do not constitute insuperable handicaps to the creation of an independent, just and equitable society. The revolution instilled national pride and a sense of regional identification in those Cuban who remained and struggled and survived to construct a society where equality of opportunity became truly an operational inalienable right.
Equality of opportunity unleashed tremendous creative energy that manifested itself in all aspects of Cuban life: organization, literature, the creative arts, sports, diplomacy, construction. The revolution did not create a paradise; but what it accomplished against such odds is truly impressive.
Not all Cubans are well-fed, well-housed, well-cared for, and well-educated. But the overwhelming majority of Cubans currently enjoy facilities and opportunities that before 1959 remained the preserve of a privileged few. The national government has a legitimacy, popularity, and international respectability never before experienced in the history of the republic. Cuban advice and assistance are accepted in countries where once both were despised and detested. Only Washington host more diplomatic missions than Havana in the Americas.”
Acredito que essas palavras continuam tão fortes hoje quanto antes. Resta saber agora por quanto tempo.
16 de março de 2011
Diário cubano - 5
O salário reduzido que os cubanos recebem do governo e as restrições da “caderneta” de alimentos e utilidades fornecidos mensalmente pelo regime levam à existência de uma economia paralela, um tipo de economia informal socialista. Pessoas têm um segundo emprego, normalmente relacionado ao turismo, para obter uma fonte de renda extra. O “jeitinho” cubano busca também extrair dos turistas rendas não-oficiais, que fogem ao controle do governo cubano (ao que parece, sob um tipo de vista grossa, um "faz de conta que não vi" estatal.) Ao lado do mercado negro para os cubanos, a principal evidência dessa dupla economia é garantida pelo próprio governo: existem os pesos cubanos usados pelos locais e os CUCs, moedas que circulam somente para o turismo da ilha e que nós, turistas, utilizamos a todo momento.
Embora a permanência em Havana tenha sido mínima e apesar de todo o aparato turístico que normalmente nos isola da realidade local em qualquer lugar que vamos, não se percebe uma repressão manifesta contra os moradores. A polícia não parece ameaçadora e os cubanos, bem-humorados e dotados do mesmo espírito latinoamericano, seguem suas vidas, não diferentes de cidadãos de qualquer outro lugar. É claro, existe um autoritarismo de tipo carismático que não vimos, sentido pelos cubanos na sua vida cotidiana. A Revolução cubana foi alcançada, mas não sem um alto sacrifício de certas liberdades individuais. Uma grande dificuldade certamente reside em sair da Ilha: além de caro (alguém falou algo entorno de US$ 3.000,00), o governo cubano é extremamente rígido no controle emigratório de seus cidadãos.
Contudo, parece que novos ares sopram na terra de Fidel. O governo cubano tem liberado nos últimos anos pequenos negócios privados e em breve demitirá uma quantidade significativa de cubanos, com o objetivo de reduzir custos ao Estado e impulsionar uma nascente atividade econômica de mercado. A guia de um city tour falou algo que imaginei que não iria ouvir: o objetivo seria caminhar para um socialismo de tipo europeu (!!!). O principal evento sobre a mudança de rumo do regime será o VI Congresso do Partido Comunista Cubano, que se reunirá em abril desse ano para discutir o futuro político, econômico e social da República de Cuba.
Em breve, colocarei um artigo mais detalhado sobre o assunto.
Após essa semana intensa, retornamos para o Brasil, com apenas uma única dúvida:
Quando voltar?15 de março de 2011
Diário cubano - 4

Chegamos em Havana bem cedo e nos hospedamos no Hotel Telégrafo. Ficamos no meio da confusão, no Centro de Havana, próximos ao Capitólio e ao Gran Teatro. Nos dias que passamos ali, fizemos peripécias pela capital cubana, caminhando pela “rambla” (passeio de pedestres) até o Malecón, a mureta que fica na beira-mar da cidade. Paramos em charutarias e outras lojas de produtos locais (como o rum) e conhecemos a parte histórica, Habana Vieja. A Plaza de la Revolución, lugar famoso pelos discursos de Fidel e pela imagem de Che no prédio do Ministério do Interior (foto), também foi um lugar obrigatório, ao lado da Fortaleza de San Carlos de la Cabaña, do outro lado da Baía de La Habana.
O que chama a atenção do visitante é como eles conseguiram restaurar construções coloniais, que não perdem em nada para cidades históricas européias. A enorme quantidade de turistas que andam por ali também é de surpreender, para quem espera encontrar um país relativamente fechado e com poucos turistas, devido tanto ao regime como ao embargo americano. De procedência dos cruzeiros que passam por ali ou mesmo através de vôos diretos da Europa, México e América Central, os turistas são responsáveis pela principal fonte de renda da ilha na atualidade. Havana já conta com uma relativa estrutura de turismo, com bons restaurantes, lojas e lugares para visitar.
Além da cidade velha, as construções do Malécon também passam por um processo de restauração. Fora isso e o bairro mais novo de Vedado, a residência dos moradores situam-se em casarios muito antigos, que parecem estar em um processo avançado de ruína, recordando mais cortiços e favelas do que qualquer outra coisa.
Contudo, isso somado aos carros antigos que transitam por toda Havana e aos cocotaxi, dão um certo estilo retrô e espírito pitoresco à cidade caribenha, tornando-a provavelmente única no mundo e um lugar fascinante para se conhecer.
CONTINUA AMANHÃ...
14 de março de 2011
Diário cubano - 3
O mar dali era indescritível. Nem uma fotografia bem tirada seria capaz de captar a pureza daquelas águas cristalinas. Entramos ainda em uma das “cuevas”, buracos em pedras que circundam a ilha, fazendo snorkeling. Passando pelo buraco, saímos em uma pequena praia.
Fomos uma noite à Nueva Gerona, a cidade principal da Ilha, que conta com uns 87.000 habitantes. Comemos um banquete em um dos paladares, restaurantes montados nas casas dos moradores, que precisam de uma autorização do governo para tanto. Sua proprietária, dueña Amarílis, parecia querer nos deixar satisfeitos de todos os modos. A refeição inusitada: carne de crocodilo (há crocodilos no caribe e América central) e de carneiro, com outras iguarias locais. Depois, andamos pelas ruas da pequena cidade, que me recordou cidades de porte médio do interior do Nordeste.
Em uma outra noite, houve uma pequena “discoteca” no hotel. Mas isso deixo pra contar em outro lugar...
Encerramos assim nossa aventura na Isla de la Juventud. No dia seguinte, partiríamos para a segunda parte: Havana!
CONTINUA AMANHÃ...
13 de março de 2011
Diário cubano - 2
Na Ilha da Juventude, nos hospedamos no Hotel El Colony. O hotel foi construído na década de 50, logo antes da Revolução, para ser um cassino. Teve um curto tempo de vida e foi apropriado pelo regime cubano. O El Colony localiza-se bem enfrente ao mar, possui boas instalações, uma piscina bacana e uma pletora de funcionários, quando comparados com os poucos turistas que ali se aventuravam. De fato, além de nosso grupo, estavam ali, no máximo mais uma dezena de pessoas. A impressão que se tinha, ao se ver tantas mesas, espreguiçadeiras e cadeiras de praias, era que estavam à espera de uma multidão, que nunca chegava... A comida não era de boa qualidade, com poucas opções. Mas era o que tínhamos, pois o hotel se encontrava a aproximadamente 50 quilômetros do maior povoado da ilha, Nueva Gerona.
Apesar disso, o hotel era excelente para o propósito de nossa estada na Ilha da Juventude. Afinal de contas, viemos para mergulho, e não para desfrutar a deliciosa culinária cubana. O Centro de Mergulho Marina ficava a um quilômetro do hotel e era para lá que nos caminhávamos (de ônibus) todas as manhãs, prontos para embarcamos no barco Neptuno. Do Centro de Mergulho até os pontos, levávamos aproximadamente de uma hora a uma hora e meia.
A tripulação do Neptuno era composta pelo capitão da embarcação, por um cozinheiro e pelos dois guias que nos orientavam nos mergulhos. No início, pareciam um pouco reservados, mas não demorou muito para ficarem à vontade com, digamos, a cordialidade brasileira, a ponto de saírem piadinhas de proctologistas y otras cosas más. A embarcação não era das melhores, o espaço para equipar era bem restrito e tudo parecia meio largado. A cozinha... O que não mata fortalece! Mas saímos todos vivos e com muitas histórias para contar.
Foram quatro dias de mergulhos fantásticos. Cada mergulho conseguia superar o anterior em termos de visibilidade, vida marinha e adrenalina. O primeiro dia foram mergulhos de pouca profundidade, certamente para os guias locais analisarem a quanto andava o nível dos mergulhadores. Mas esses mergulhos iniciais já sinalizavam para a riqueza das formações coralíneas e da fauna que encontraríamos dali pra frente.
No dia seguinte, o primeiro mergulho ao Salón Maravilloso serviu como recorde de profundidade para muitos: meu computador bateu 46.9 metros de fundo! Evidentemente, foi uma passagem rápida pelo Salón. O mergulho seguinte, de menor profundidade, abriu para nós mais uma visão desbundante de corais e da vida pujante que os habitava. O terceiro mergulho foi semelhante ao segundo, porém sempre com alguma novidade que ainda não havíamos vislumbrado naquela parte do mar caribenho.
O terceiro dia certamente será o que nos deixará um registro inapagável da memória. Fomos para Los Indios, no mar de fora, mergulhar. A visibilidade batia 60 metros, segundo a estimativa média (os mais cautelosos preferiam dizer acima de 50 metros, os mais entusiasmados arriscavam 70 metros). Arraias escondidas nas areias, vida abundante, corais de deixar o queixo caído e água roxa concentrada na veia deixaram a todos nós atordoados. Nas palavras de Carlos Hugo, saímos todos em êxtase. Absoluto êxtase. O mergulho seguinte foi raso (máximo de 9 metros) em naufrágio. Espetacular também, possibilitou avistar mais vida, como barracudas e meros. O terceiro mergulho do dia foi noturno, onde pudemos ver polvos, enormes caranguejos (caranguejolas, segundo o Silvio) e lagostas, além de enorme quantidade de peixes.
No quarto e último dia de mergulho, fomos a Cueva Azul, também mergulho profundo (+- 44 metros), uma fissura submarina, muito estreita, mas que todos conseguiram se sair muito bem. O último mergulho serviu como uma “revisão” daqueles dias de mergulhos extraordinários, com toda aquela riqueza de vida e de corais se apresentando mais uma vez. Fechamos com chave de diamante.
Mas não só de mergulhos vivíamos naquela Ilha...
CONTINUA AMANHÃ...

