2 de abril de 2011

Limites da auto-superação em um teste ergométrico


Na tradição yôguica, a palavra em sânscrito "tapas" significa a prática ascética hindu com o objetivo de transformação e transcendência da consciência ordinária.

Nas palavras de Georg Feurstein,

"Na Índia, o termo mais antigo (que designava as práticas semelhantes às do Yoga) era tapas. Essa antiga palavra sânscrita significa literalmente 'calor'. É derivada da raiz verbal tap, que significa 'abrasar' ou 'brilhar'. O termo é usado muitas vezes no Rig-Veda para descrever a qualidade intrínseca e a obra do disco solar (ou do deus correspondente, Sûrya) e do fogo sacrificial (ou do deus correspondente, Agni). Esses textos deixam implícito que o calor do sol e do fogo é doloroso e opressor em sua intensidade abrasadora. Vemos aí a raiz do uso metafórico que depois de seu à palavra tapas, que passou a significar o calor da alma sob a forma da raiva e da agressividade mas também do fervor, do zelo e da dedicação ardorosa.
Assim, a palavra tapas passou a designar o esforço religioso ou espiritual, a disciplina que o homem impõe a si mesmo sob a forma de práticas ascéticas. Por isso, tapas é frequentemente traduzido por 'ascese' ou 'ascetismo'." (Georg Feurstein, A tradição do Yoga, Editora Pensamento, p. 106-107)

DeRose, em uma releitura do tapas, apresenta o seguinte conteúdo desse princípio:

"O yôgin deve observar constante esforço sobre si mesmo em todos os momentos. Esse esforço de auto-superação consiste numa atenção constante no sentido de fazer-se melhor a cada dia e aplica-se a todas as circunstâncias."

Pois bem. Se tapas se aplica a todas as circunstâncias e significa "auto-superação" por meio do "fervor, do zelo e da dedicação ardorosa", porque não aplicá-lo em um teste ergométrico?

Também para facilitar a definição do que vem a ser o teste ergométrico, chamo aqui meu amigo Wikipedia:

"Teste Ergométrico, Teste Cicloergométrico ou Teste sob estresse físico é um exame complementar de diagnóstico em Medicina, realizado por profissional médico cardiologista habilitado, que consiste em submeter o indivíduo a uma determinada modalidade de esforço físico graduado e monitorado com eletrocardiograma, objetivando aumentar sua demanda metabólica global e em especial a demanda metabólica do coração, podendo assim avaliar, entre outras variáveis, a aptidão cardio-respiratória global do indivíduo e a presença de isquemia no músculo cardíaco.(...) O esforço pode ser realizado geralmente através de esteira ou bicicleta."

No caso que agora comento, foi adotada a esteira. O teste começa com a esteira em plano, numa velocidade baixa, a ponto de se poder andar. Porém, não fica nessa moleza não. A esteira vai aumentando em inclinação e em velocidade. Enquanto vai aumentando, o médico monitora a pressão, e vai perguntando, "está tranquilo?".

É óbvio, vamos respondendo que sim. Está tranquilo? Sim. Aumenta a velocidade e a inclinação. Está tranquilo? Mel na chupeta. Aumenta a velocidade e inclinação. Mede pressão. Continua confortável? Para mim, está ótimo. Inclinação em trinta graus, o passo aperta. O médico: se quiser, pode começar a correr. Legal. Inclinação em quarenta graus, começo a correr. Mede pressão. O médico intervém de novo: Quando não se sentir mais confortável e achar que não dá mais pra ir, só falar que paramos.

Parar?? Jamais. Tapas. Auto-superação. Dedicação ardorosa. Só paro quando o exame concluir.

Inclinação acentuada mais ainda, começo a correr mais. Provavalmente uns 8 km/h. Mede pressão. 9km/h. A esteira já está quase vertical! 10 km/h. A respiração fica ofegante, boca aberta. Olhando o monitor, a frequência vai se elevando: 178, 184, 187, 189!

O médico continua medindo a pressão. Está tranquilo? Aham... As palavras param de sair. O pensamento: quando termina esse maldito exame? O pensamento verbaliza para o médico: Quanto tempo mais? O médico: Na hora que você quiser parar.

Na compreensão de alguém que começa a ser tomado pela fadiga e um início de desespero, entendi que o exame estava concluído, e não titubiei: para mim, está bom!

Ok, teste encerrado. Fiquei satisfeito por ter ficado ali, quase escalando a esteira em alta velocidade, coração a mil, e ser autorizado pelo médico a encerrar o exame. Porém, após a entrega do exame, leio, já em casa, uma das conclusões, para a minha consternação:

"Teste interrompido por exaustão física".

Teste interrompido??? Exaustão física??? Mas já estava terminado! Por isso, pedi arrego. E de qualquer forma, tinha ainda gás para mais um pouco! O tapas foi por água abaixo. A auto-superação ficou pra outro dia. Uma lição quanto à aplicação desse princípio em todas as circunstâncias...

Porém, um resultado positivo para o condicionamento físico. Na conclusão sobre a aptidão cardiorespiratória, constou "excelente". Certamente, desde que me entendo por gente, é a primeira vez de uma nota dez nesse quesito. Nem tudo são espinhos num teste ergométrico.

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