Numa época em que a obesidade anda a passos largos para se tornar uma pandemia e, paradoxalmente, a cultura prevalecente nos ordena a mexer e malhar, parecemos esquecer do velho adágio romano: “mens sana in corpora sano”. Uma mente sã num corpo são. Quase tão antigo quanto a invenção da roda, parece ser o momento certo para dar novo significado a esse ensinamento ancião. De acordo com o Wikipedia, com essa frase, o poeta romano Juvenal criticava as orações erradas de seus contemporâneos, que pediam coisas descabidas aos deuses, quando bastava pedir saúde física e espiritual.
Com o tempo, a frase mudou de sentido e passou a comportar a idéia de ser necessário um equilíbrio saudável no estilo de vida. Pode ser compreendido que somente alcançamos bem-estar quando a mente e corpo estão sãos.
Se hoje a atenção volta-se para a qualidade (e quantidade) do que comemos, visando disciplinar nossa voracidade para evitar açúcar, gordura ruim e carboidratos, esquecemos que nossa mente também é voraz, insaciável, e merece também passar por uma “dieta”.
De acordo com o yôgin Vishnudevanana, a mente é como um macaco bêbado picado por um escorpião. O pensamento oriental utiliza bastante o termo “mente-macaco” para se referir a esse comportamento de nossa mente que divaga e, facilmente entediável, corre para outra ocupação. Cansando rapidamente, pula de um lazer para outro, ou para outro pensamento. Daí a analogia com o macaco, que pula sempre de galho em galho. Normalmente, enfatiza-se uma disciplina mental para tranquilizar o macaco, e fazer com que mude de árvores com, pelo menos, um pouco mais de atenção.
Todavia, nossa época proporciona infinitas possibilidades de experiências visuais, auditivas, táteis, olfativas e gustativas, através de nossas “cinco portas” (nossos sentidos) para o mundo, produzindo sensações. Desde a possibilidade do cinema 3D até fragrâncias das mais exóticas, desde as mais variadas posibilidades musicais até todo o tipo de cozinha internacional inimaginável e acessível, estamos suscetíveis a uma pletora de possibilidades de sensações, sejam agradáveis ou desagradáveis.
Ou seja, essa floresta está com muito galho para o macaco pular. E a cachaça está rolando solta para o macaco pular ainda mais ensandecido.
Isso não é um problema, até certo ponto. Quando passamos a perder o critério e o senso de quais sensações absorver, sem conseguir discriminar o necessário e saudável do desnecessário e tóxico, isso pode se tornar um problema para a mente, assim como junk food faz mal para o corpo.
E isso nem é novidade. Afinal de contas, os termos "poluição sonora" e "poluição visual" já estão circulando por aí há algum tempo. Talvez o que falte agora é assumirmos a responsabilidade individual para resistir ao despejo incontrolável das sensações do mundo contemporâneo.
Penso que permitir absoluta liberdade às sensações e se submeter à experiências tóxicas (na minha opinião, nada mais tóxico do que reality shows, revista fúteis e televisão domingo à tarde) se convertem num tipo de junk food mental, a que nos viciamos sem perceber. Isso pode trazer prejuízos não só para nosso conforto mental - como foco e discernimento - mas pode resultar em uma sociedade que perde absolutamente seus referenciais e não consegue mais perceber o que presta do que não presta.
Curiosamente, ao digitar junk food mental na pesquisa do Google, apareceu um site Mental Junk Food, que, como não poderia deixar de ser, trata de “celebrity gossip and news! Be the first to know about what is going on in the crazy world of entertainment.”
Serve apenas para provar o ponto em questão.
Depois de preocuparmos com o que comemos, será que não é hora de perguntar o que nossa mente anda consumindo?
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