
Para exercemos o dom da comunicação verbal, necessitamos de palavras que expressem idéias aceitas por todos. Se digo cadeira, espera-se que a pessoa compreenda a referência a um objeto feito para sentar a uma certa distância do chão. Mas a cadeira pode ser de madeira ou de plástico, pode ter quatro pés, ou um único pé. A palavra, de repente, fica insuficiente para a compreensão. Precisamos ir além.
Isso para um objeto concreto da realidade. Agora, imagine-se a dificuldade de se expressar um sentimento, uma emoção ou um estado de espírito. Se digo que "estou com raiva", espero que você compreenda o estado (momentâneo) de indignação e revolta com uma situação ou pessoa. Mas isso pressupõe que você já tenha passado por esse sentimento e entenda o efeito dessa emoção sobre o estado psíquico. A dificuldade aumenta: será que o que entendo por raiva, ou amor, ou ódio, ou alegria, ou orgulho, ou desprezo, é a mesmo coisa que você entende? Como saber?
Isso reflete no vocabulário dos povos. Em alguns idiomas, algumas emoções simplesmente não possuem uma palavra que as identifique. É conhecida a informação de que a palavra "saudade" existe apenas no português.
No livro "Consciência emocional" - que é um interessante diálogo entre o norte-americano Paul Ekman, renomado psicólogo comportamental, e o Dalai Lama, autoridade do budismo tibetano - os autores discutem o que chamam de "a pobreza da linguagem emocional".
Paul Ekman dá o exemplo da palavra "orgulho", que pode ser compreendida como autoconfiança. É o prazer que se tem nas realizações pessoais. E logo fala: "Para mim, isso é diferente do prazer que se tem nas realizações dos filhos, sejam filhos biológicos ou de criação. Quando eles conseguem se beneficiar das suas realizações, quando eles conseguem realizar as coisas, a sensação é boa. A única língua que conheço que tem uma palara específica para isso é o iídiche. Em iídiche, isso é chamado de naches, que significa o prazer singular que se sente, não quando você realizou algo, mas quando o filho ou aluno realizou algo." (Mas o Dalai-lama logo coloca uma observação auspiciosa: "ainda há uma auto-referência: É o meu aluno.")
O Dalai fala da compreensão do orgulho em sua língua, o tibetano: o estado emocional que se aproxima do orgulho, correspondente à forma como nos sentimos quando estamos diante de um grande desafio que nos leva até nosso limite, fazendo o melhor possível, sem ostentação - um tipo de "bom" orgulho, leva o nome em tibetano de popa. Já o orgulho negativo, o da ostentação, é ngagyal, que significa literalmente autovitória.
Em português, assim como no inglês, usamos apenas o termo"orgulho" para expressar ambos os estados emocionais. Da mesma forma, usamos "ambição" para expressar sentimentos que podem ser vistos como positivo (o "querer" que nos move a uma realização) como negativo (um querer desmesurado e potencialmente inescrupuloso).
Daí sempre haver controvérsias sobre o julgamento de emoções e pensamentos.
Paul Ekman dá ainda o exemplo da palavra "amor", usada tanto para expressar a emoção de afeto entre um homem e uma mulher, como aquela dos pais pelos seus filhos. Conclui que, quanto ao amor parental, não se trata de uma emoção, e sim de um compromisso de uma vida inteira.
Interessante a conclusão de Ekman, válida também para nossa língua lusa:
"Não conheço outras línguas o suficiente para dizer, mas o inglês me parece relativamente pobre na classificação das diferentes emoções. Se não temos palavras para descrever diferentes estados, como essas duas palavras tibetanas, não temos como pensar a respeito deles e nos anteciparmos a eles. Não podemos nos disciplinar tanto porque não temos as palavras para nos referir a essas emoções. Sem palavras, não podemos refletir sobre o que ocorreu ou poderia ocorrer.
Somos, em certo sentido, animais que não têm, pelo menos em inglês, palavras suficientes para descrever a variedade de nossas experiências emocionais, particularmente quando elas são destrutivas ou construtivas. Sem rótulos diferentes para cada estado mental é difícil refletir sobre sua natureza e considerar como queremos demonstrá-los em episódios emocionais futuros."
Hora de ampliar o Aurélio?
Isso para um objeto concreto da realidade. Agora, imagine-se a dificuldade de se expressar um sentimento, uma emoção ou um estado de espírito. Se digo que "estou com raiva", espero que você compreenda o estado (momentâneo) de indignação e revolta com uma situação ou pessoa. Mas isso pressupõe que você já tenha passado por esse sentimento e entenda o efeito dessa emoção sobre o estado psíquico. A dificuldade aumenta: será que o que entendo por raiva, ou amor, ou ódio, ou alegria, ou orgulho, ou desprezo, é a mesmo coisa que você entende? Como saber?
Isso reflete no vocabulário dos povos. Em alguns idiomas, algumas emoções simplesmente não possuem uma palavra que as identifique. É conhecida a informação de que a palavra "saudade" existe apenas no português.
No livro "Consciência emocional" - que é um interessante diálogo entre o norte-americano Paul Ekman, renomado psicólogo comportamental, e o Dalai Lama, autoridade do budismo tibetano - os autores discutem o que chamam de "a pobreza da linguagem emocional".
Paul Ekman dá o exemplo da palavra "orgulho", que pode ser compreendida como autoconfiança. É o prazer que se tem nas realizações pessoais. E logo fala: "Para mim, isso é diferente do prazer que se tem nas realizações dos filhos, sejam filhos biológicos ou de criação. Quando eles conseguem se beneficiar das suas realizações, quando eles conseguem realizar as coisas, a sensação é boa. A única língua que conheço que tem uma palara específica para isso é o iídiche. Em iídiche, isso é chamado de naches, que significa o prazer singular que se sente, não quando você realizou algo, mas quando o filho ou aluno realizou algo." (Mas o Dalai-lama logo coloca uma observação auspiciosa: "ainda há uma auto-referência: É o meu aluno.")
O Dalai fala da compreensão do orgulho em sua língua, o tibetano: o estado emocional que se aproxima do orgulho, correspondente à forma como nos sentimos quando estamos diante de um grande desafio que nos leva até nosso limite, fazendo o melhor possível, sem ostentação - um tipo de "bom" orgulho, leva o nome em tibetano de popa. Já o orgulho negativo, o da ostentação, é ngagyal, que significa literalmente autovitória.
Em português, assim como no inglês, usamos apenas o termo"orgulho" para expressar ambos os estados emocionais. Da mesma forma, usamos "ambição" para expressar sentimentos que podem ser vistos como positivo (o "querer" que nos move a uma realização) como negativo (um querer desmesurado e potencialmente inescrupuloso).
Daí sempre haver controvérsias sobre o julgamento de emoções e pensamentos.
Paul Ekman dá ainda o exemplo da palavra "amor", usada tanto para expressar a emoção de afeto entre um homem e uma mulher, como aquela dos pais pelos seus filhos. Conclui que, quanto ao amor parental, não se trata de uma emoção, e sim de um compromisso de uma vida inteira.
Interessante a conclusão de Ekman, válida também para nossa língua lusa:
"Não conheço outras línguas o suficiente para dizer, mas o inglês me parece relativamente pobre na classificação das diferentes emoções. Se não temos palavras para descrever diferentes estados, como essas duas palavras tibetanas, não temos como pensar a respeito deles e nos anteciparmos a eles. Não podemos nos disciplinar tanto porque não temos as palavras para nos referir a essas emoções. Sem palavras, não podemos refletir sobre o que ocorreu ou poderia ocorrer.
Somos, em certo sentido, animais que não têm, pelo menos em inglês, palavras suficientes para descrever a variedade de nossas experiências emocionais, particularmente quando elas são destrutivas ou construtivas. Sem rótulos diferentes para cada estado mental é difícil refletir sobre sua natureza e considerar como queremos demonstrá-los em episódios emocionais futuros."
Hora de ampliar o Aurélio?
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